quinta-feira, 24 de junho de 2010

Texto comparativo entre os compositores Pe. José Maurício, Marcos Portugal e Sigismund Neukomm

Texto Comparativo

Para Maurício Monteiro, autor do livro “A Construção do Gosto”, os três compositores da corte joanina são chamados de trindade tropical, onde um era diferente do outro, mas viveram como num sistema de trocas culturais.

O português Marcos Antônio Portugal foi o representante do estilo italiano, Sigismund Neukomm era o classicismo vienense e José Maurício o resultado tropical, sem ter saído do Rio de Janeiro, cada qual com sua particularidade. Foram os compositores de maior popularidade e prestígio junto ao príncipe e à Família Real.

Com a chegada de Sigismund Neukomm juntamente com a presença de Marcos Portugal, causou-se uma mudança no cenário musical, trazendo o drama italiano junto com a simetria clássica. José Maurício nunca saiu do Brasil, mas sempre observou as práticas musicais de Marcos Portugal e Sigismund Neukomm, já citadas acima (que era o que acontecia nas ruas naquele momento).

O autor diz no livro que José Maurício era filho de um mestre-de-campo, e sua formação musical é desconhecida, mas talvez tenha tido aulas de música com Salvados José, que é citado também por outros autores. A aptidão do padre José Maurício foi desenvolvida desde muito cedo e sobre sua formação pode-se pensar em autodidata e no ensino pelas Irmandades, uma das formas de auxílio que elas estendiam aos seus irmãos.

O padre teve a admiração de Neukomm, não somente pelas suas obras musicais, mas pela atividade musical constante de um gênio criativo, empenhado em desenvolver seu trabalho. José Maurício foi o que mais contribuiu para a circunstância da fé e o cumprimento dos rituais religiosos da corte, enquanto que os outros dois compositores vieram especialmente para a música de cena e para a prática de entretenimento cortesão. Portanto, as três vias estavam garantidas: a religião, o entretenimento e a dramatização.

Nesse triângulo, Marcos Portugal aparece como diferencial, pois era o mais privilegiado músico do rei, o mais bem pago música da corte. Na Europa, teve fama de operista, e no Brasil não foi diferente; aqui teve prestígio junto a dom João, manteve sua estabilidade financeira e também ficou conhecido pelas intrigas palacianas, pelos desafetos com José Maurício (tentando ofuscar seu talento), pelas pretensões a títulos e por se meter onde não era chamado. Ainda nesse livro, podemos observar que Marcos Portugal foi além, imprimindo obras de outros autores e colocando em seu nome; parecia não medir esforços para conseguir seus objetivos. Suas inimizades estendem-se a todos os níveis.

O autor também cita um irmão de Portugal, chamado Simão Portugal, que também usufruiu das regalias oferecidas pela corte.

Bem diferente foi Sigismund Neukomm (discípulo de Haydn), que apesar de toda sua influência com mecenas e patronos, sobretudo na França com o príncipe Charles Maurice de Talleyrand, e no Brasil com seu protetor, o conde da barca Antônio de Araújo Azevedo, pareceu ser sempre sutil, e por ser um homem que gostava de viagens deveria preservar sua imagem e não expor negativamente em cortes que poderiam eventualmente acolhê-lo. No Brasil, foi professor e responsável, junto a Marcos Portugal e José Maurício, pelas obras das cerimônias oficiais da corte. Deixou o Brasil em 1826 e foi para a Itália, e da Itália para outros países, até voltar ao seu país de origem.

Para o Brasil, a vinda de Neukomm e de Marcos Portugal representou a seqüência de um estilo europeu que estava em alta nas cortes da Europa, que aqui no Brasil influenciaram e foram influenciados principalmente pelo representante de práticas coloniais, José Maurício, nessa miscigenação de cultura.

Diferente de Maurício Monteiro, Vasco Mariz em seu livro “História da Música no Brasil”, no capítulo A música na corte de D. João VI e D. Pedro I, dá uma maior ênfase ao padre José Maurício, que durante três anos (1808 – 1811) dirigiu todas as atividades musicais da corte portuguesa no Rio de Janeiro.

O autor cita que após a chegada de Marcos Portugal, o padre sofre o que ele chama de influência negativa do estilo pomposo e adornado de música napolitana, que estava na moda em Lisboa, e que para se ajustar à realidade sobrecarregou sua música singela e espontânea e adornou a pureza de sua inspiração para poder competir com seu rival português. Quando Marcos Portugal chegou ao Brasil, em 1811, moveu uma campanha contra o padre, por ser brasileiro, mulato e já ter, nessa época, três filhos. Como já se sabe, Marcos Portugal fez intrigas para derrubar seus opositores, até mesmo Sigismund Neukomm.

Em contrapartida, após termos falado da trindade, do padre José Maurício, André Cardoso faz um relato no capítulo A música na corte do Rio de janeiro, de seu livro “A música corte de D. João VI”, de acordo com o padre Perereca, da chegada em 8 de março de 1808 de dom João ao Rio de Janeiro, que ao desembarcar seguiu em procissão até a igreja do rosário, onde assistiu sua primeira cerimônia religiosa no Brasil. Não há uma certeza de quem foi o compositor das obras musicais da primeira missa assistida por dom João aqui no Brasil, mas provavelmente foi o mestre-de-capela da catedral, que desde 1798 era o padre José Maurício.

No que diz respeito ao ensino de música no país, começou com os jesuítas, financiados pela Coroa. Com a expulsão deles, houve uma regularização nos métodos de ensino, diferente do que os jesuítas passavam.

Mesmo com a chegada da corte, o aprendizado musical herdado do sáculo XVIII não foi alterado. No Rio de Janeiro, José Maurício ministrou em sua própria casa o mais famoso e regular curso de música, sendo que as aulas eram gratuitas e os alunos que participavam das mesmas eram dispensados do serviço militar.

Concluindo, vemos que as informações contidas nos capítulos estudados, nos conduzem à trajetória dos compositores mais importantes da corte de dom João e suas atividades e influências.

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